3.5.12

1ª lição da cidade / elias paz e silva


aprender nos tortos
passos do quarentinha
a poesia marginal da cidade
os guetos a fome
e o grunhir
dos que sobrevivem como lixo
cartão-postal
para os olhos desatentos dos turistas


eliaz paz e silva
teresina - pi / 1963
poemário ii
teresina: 1991

20.4.12

semelhança


O rio é como a gente,
se vai o tempo inteiro.

Sempre está ali:
à margem de nós,

passando.


laerte magalhães
um ponto fora da curva
teresina: 2007
 

15.4.12

tristeresina / marcos freitas



luzes azuis cal-
                      cinantes
Vermelha
Cajueiros
Buraco da Velha
Baixa do Chicão
Barrocão
bairros da zona sul
       - de minha infância ...
tapete quadriculado
ruas planejadas na
                Chapada do Corisco:
risco vento balão de São João...
ruas de ruas
                        barros
                                     rocas
 caminhos
                    feitos
                                  (des)encontros
meta-
               morfoseados:
                                         tristes
                                                       resina


marcos freitas
teresina – pi / 1963
urdidura de sonhos e assombros
poemas escolhidos (2003 – 2007)
rio de janeiro: CBJE, 2010

10.4.12

vista de timon / francisco miguel de moura


Onde o teu verde olhar, mulher?
No corpo não, nos olhos não.
Quanto asfalto, lixo, TV, esgoto, favela.
Prédios do INPS (agora INAMPS), do Hotel (Luxor)
Piauí e da Associação Comer-cia(I), entre
- mangueiras que não dão mangas -
perdido a gente se vê.

Do lado de cá te olhando
Como se admira um postal
bem nos olhos esta canção
senti.
Canção menor, de amor de mais
de quinze anos e um filho,
e dos dias já vencidos.

Volto a fita dos meus sonhos,
Ponho-me no âmago Poti/Parnaíba,
bem onde as águas se irmanam escuras

e os desejos se perdem,
e me declaro réu:
- Narciso em teus espelhos.


francisco miguel de moura
picos - pi / 1933
145 anos: teresina cidade futuro
teresina: fcmc, 1997
 

24.3.12

o son(h)o da cidade / elias paz e silva


o sonho da minha cidade
é amarelo
na sua paisagem iluminada
(na pele de seu rio sujo)

o sono da minha cidade
é o sonho do seu povo
que dorme na mesma esperança
de todos os dias


eliaz paz e silva
teresina - pi / 1963
poemário i
teresina: 1991

19.3.12

teresina / laerte magalhães


A cidade é pequenina,
mas o sonho é imenso,
feito o rio mais extenso,
que nos banha e nos fascina.

Ao dobrar de cada esquina,
sob o céu que nos socorre,
cada rua que nos percorre
para o bairro a que se destina.

Barcos que, sob pontes,
conduzem também destinos,
homens, iguais a meninos,
são afluentes e fontes.

Nas veias correm também
veios de luz, raios vivos,
os rios passando altivos
são rios de querer bem.

No bulício da quermesse,
o calor que desatina,
o coração de Teresina
é o sol que nos aquece.


laerte magalhães
um ponto fora da curva
teresina: 2007

17.3.12

o parnaíba / júlio antônio martins vieira


Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.

Leva a flor que tranqüilas adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...

- Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar, o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz.

Ó rio banfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
E a nós, pelo batismo, o nome de Jesus.


júlio antônio martins vieira
teresina / pi  - 1905 – 1984
antologia dos poetas piauienses, wilson carvalho gonçalves
teresina: 2006

16.3.12

o sonho possível / hardi filho

.
Mil novecentos e oito.
Pra seu final o século caminha.
Mais um milênio! A festa se avizinha,
E é tema deste soneto afoito.

O tempo é de inflação (sobre o biscoito,
o pão, a carne, a banana, a farinha...)
Mas é também de avanço (antes não tinha
Moça donzela pronta para o coito).

A vida está um caos, um pardieiro
onde se faz de “tudo por dinheiro”
e a honra é um mar que quase já secou.

Em Teresina – Piauí – Brasil,
meu sonho é alcançar o ano 2000
sendo o homem que sempre fui e sou.


francisco hardi filho
fortaleza – ce / 1934
antologia dos poetas piauienses, wilson carvalho gonçalves
teresina: 2006
.

12.3.12

remanso / gregório de moraes


O Parnaíba imenso, adormecido 
Pelas beiradas balsas deslizando 
Balouçam leves, vão além singrando 
Ao pôr do sol, do meu torrão querido

Velhas lembranças tenho reunido
O Mafuá, o Boi, os Reis, cantando
elo Cabral, tambores soluçando...
O canto do capote, vão, perdido!

É, tudo, sei, de outrora uma lembrança
Do meu alegre tempo de criança
Fazendo pescarias e caçadas!

Quisera ver outra vez minha terra
Andar à esmo qual pássaro que erra
Na imensidão perdida das chapadas.
 

gregório de moraes
1939 – 1963
auroras perdidas
rio de janeiro: 1970

11.3.12

igrejas e avenidas / paulo tabatinga


Das Dores guardo pra sempre
São Benedito dentro de mim
Nossa Senhora seja Amparo
Que eu serei Frei Serafim


paulo tabatinga
teresina - pi / 1960 
http://entrefotoseversos.blogspot.com/

10.3.12

são josé / adriano lobão aragão

 
estes que talvez aqui não mais se encontram abrigados
em respectivos jazigos que dos herdeiros herdaram
nesta terra se revestem de lembrança e esquecimento
 
sob a sombra de antigas árvores silêncio tardio
sob o passo lento de transeuntes e de abandonados
gatos leves passos sob céu chuva e nuvem se resguardam
 
apenas o ponto e o porto em que seus corpos decompostos
inertes se reencontram dispersos nesta mesma terra
semente perene como a noite que lhes protege
 
sob a sombra destes túmulos nas linhas desta lápide
talvez aqui se revestem de esquecimento e lembrança
 
 
adriano lobão aragão
teresina - pi / 1977
as cinzas as palavras
.

9.3.12

rio poty ii / william melo soares


desce o rio
margeando
o plantio das vazantes
alimentando 
em seu leito
essa gente ribeirinha
segue o rio
vida aflora
pela nadança 
dos peixes


william melo soares
alto longá - pi / 1953
estado de garça
teresina: 2011